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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Rapidinhas eleitorais

    O fato de não votar nulo agora não livra ninguém de descobrir, daqui a alguns meses, que votou numa nulidade.
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      A urna é o lugar onde a gente deposita o voto mas gostaria mesmo é de depositar o veto.
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Aproxima-se o dia dos debates finais, quando então os candidatos vão ficar frente a frente. Ganha quem atirar primeiro.
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         Nada mais artificial do que as passeatas (que ainda por cima fazem barulho). Elas são uma espécie de procissão sem Deus ou bloco de Carnaval sem alegria. É deprimente ver aquele povo pago para distribuir folders e levantar bandeiras, como se estivesse em jogo uma grande causa.  
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       Não deixa de ser irônica a prática da democracia num país onde os políticos têm o maior nível de rejeição popular. Mas, enfim, ela ainda é o melhor regime.
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     Desde a última terça-feira até 48 horas depois das eleições não se pode prender ninguém. Folga para a Lava-Jato.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Slogans médicos

- Pode usar, se quiser. Não se cobram direitos autorais -  

Dra. Amadina Sola - Doenças nervosas
CURA O SEU TIQUE NUM PISCAR DE OLHOS

Dr. Sedumilo Cascafundo - Especialista em próstata  
UM TOQUE DE CLASSE

Dr. Carmelo Entorta - Hepatologista.
O VERDADEIRO AMIGO FIGADAL

Dra. Neurina Afroidiana - Psicanalista
ADIVINHA OS SEUS DESEJOS    

Dr. Torcilino Frauto - Traumatologista
PAGUE SÓ O VALOR DA FRATURA    

Dr. Amadúlio Sempotoca - Dermatologista
COMPETÊNCIA À FLOR DA PELE

Dra. Digestina Ensiasta - Gastroenterologista
FAZ DAS TRIPAS CORAÇÃO    

Dr. Ortolino Vesgo - Oculista
VOCÊ VÊ O RESULTADO  

Dr. Nentudo Estaperdido - Geriatra                                   
SEGURO NÃO MORRE DE VELHO

Dr. Bisturino Sendobras - Cirurgião plástico
ESTICA A SUA JUVENTUDE  

Dr. Anáfrio Adubo - Cardiologista
O MELHOR PARA A SUA AORTA      

Dra. Onetília Sotinigro - Nefrologista
CONHECE O CAMINHO DAS PEDRAS  

Dr. B. O. Ticão - Dentista
O PRIMEIRO NO BOCA A BOCA      

Dr. K. Requinha Brilhante - Pediatra
CURA BRINCANDO

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Propinildo Caixadois

Como estamos em época de entrevistar candidatos, transcrevo abaixo a conversa que tive com Propinildo Caixadois. Propinildo não é de situação nem de oposição; é de circunstância. Ouvi-lo pode nos a ajudar a entender o atual momento, em que não se distingue política de contravenção. Vamos às perguntas e respostas:
P.: Propinildo, você resolveu se candidatar de novo por pressão das bases?
R.: Que bases! Em política não existem bases, existe ápice. E o ápice é o poder. O que me pressiona é a vontade de conquistar o poder
P.: Mas você deve ter um mínimo de compromisso com o bem comum.
R.: Meu filho, político não se candidata em prol do bem comum. O que me interessa são os bens particulares. A política é um negócio como outro qualquer.
P.: Quais são seus planos, caso seja eleito? 
R.: Uma das primeiras providências do meu governo vai ser criar um ministério para regulamentar a corrupção. Essa pasta será dirigida pelo meu primo, Justo Veríssimo. Ninguém precisará se envergonhar de suborno, superfaturamento, lavagem de dinheiro. O moralismo com que muitos ainda encaram essas práticas, que são comuns em todos segmentos da nação, vem perturbando o funcionamento de nossas instituições.
P.: Mas candidato, isto é cinismo!
R.: Prefiro o cinismo à hipocrisia. O cinismo é o realismo com um pouco de sarcasmo, mas não esconde a verdade. Você notou que ninguém acredita mais no que dizem os homens públicos? E por quê? Porque eles são hipócritas. Seria bem melhor se cada um falasse abertamente de suas ambições, escancarasse ao eleitor seus interesses. O cinismo afronta, mas não engana. ele pode recuperar a credibilidade de nossos políticos.
P.: O senhor não tem medo da reação do povo?
R.: Para me prevenir disso, pensei nuns programas assistenciais. O Bolsa Escória, por exemplo.
P.: Bolsa Escória? E por que esse nome?
R.: Para o pessoal saber direitinho que, quando a ajuda acabar, eles voltarão à pobreza de antes. Como lhe disse, eu não sou de enganar ninguém.


Humor erudito

         Uma das anedotas preferidas de Freud: um casal de meia idade está sentado numa mesa de restaurante. Levemente entediados, marido e mulher não têm muito o que dizer. De repente ele se dirige a ela e fala: -- Se um de nós dois morrer, eu vou morar em Paris...
     Godard, o cineasta francês, gostava muito desta: um condenado à morte é conduzido por seus algozes ao local da execução. Ao subir no patíbulo, tropeça e quase cai. Olha então para os que o conduzem e comenta, um tanto exasperado: -- Hoje não é meu dia sorte!
          Kant, segundo dizem, deliciava-se com a história de um homem que ficou viúvo e resolveu contratar pessoas para que se entristecessem e chorassem no enterro da sua mulher. No entanto, quanto mais aumentava o valor do pagamento, mais os contratados se alegravam!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Conversa com Antônio Maria

Conversei no último fim de semana com o cronista e compositor Antônio Maria. O fato de ele estar morto não foi empecilho para o nosso encontro. O autor de “Ninguém me ama” continua vivo em suas crônicas, que são uma deliciosa mistura de lirismo e ironia.
Graças a elas eu pude, sem expedientes mediúnicos, ter acesso ao seu espírito. Antônio Maria era gordo e sofria do coração; como não ligava para a doença, dizia-se cardisplicente. Escreveu que a profissão do brasileiro é a esperança. Suponho que nosso papo, ocorrido num domingo à tarde, será de algum interesse para o leitor. Vamos :
- Você sofre por se achar feio?
- Nãonada mais sem graça que homem bonito. São chatíssimos. Os verdadeiros canastrões da vida real! Examinem, por , o enorme êxito dos feios. Frank Sinatra, por exemplo. Nãohomem que mais sorte com mulher, no mundo inteiro.
- Dizem que você, nos últimos anos, tem preferido a solidão. É verdade?
- A experiência de viver tranca o homem, cada vez mais, em si mesmo, aconselhando-o a sarar, sozinho, todas as escoriações da alma.
- Você se considera um homem virtuoso?
- Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto. uma disposição em mim é generosa – a do amor.
- Quem, entre os seres humanos, sofre mais?
- Ah, o martírio dos amantes, que não se acreditam, que não se confiam, que não têm senão um cárcere de medos, onde afogam o sentimento espiritualíssimo da carne.
- Você condena os adúlteros?
- É preciso que se respeite o adultério. É pecado, é ilegal, é tudo que se queira, mas existe desde os começos da humanidade.  
- As mulheres de hoje se vestem bem?
- Quando a moda feminina será imaginada e desenhada por mulheres? Os costureiros, nem sempre rigorosamente homens, por mais arte que emprestem às suas criações, deixam em cada modelo, propositadamente, um detalhe negativo de absurdo ou de ridículo.  
- Que é que você sabe de Deus, de outra vida, do sobrenatural?
- A gente não sabe nada sobre as coisas de que tem medo. Teme, sem discutir. Mulher, por exemplo, que tem medo de barata, que sabe a mulher sobre as baratas? Assim sou eu, com o céu e Deus.


domingo, 18 de setembro de 2016

Metafísica do banheiro

Uma das vantagens de viver só é não ter que esperar para ir ao banheiro.
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Uma privada para uso público é uma contradição em termos.
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Poucos lugares mostram tanto o contraste entre o corpo e o espírito quanto o banheiro. Nele o indivíduo pode, enquanto “se alivia”, imaginar o começo de um poema. E quem garante que a arte abstrata não nasceu de uma prisão de ventre?
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Para muitos, o banheiro é o único lugar de refúgio e solidão – isso até que gritem do outro lado: “Já está perto de terminar?”.
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O risco de casar com alguém claustrofóbico é ter que suportar o banheiro aberto quando ele devia estar fechado. 
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Bem-aventurados os que cantam no banheiro. Esses cantam para si, com alma, independentemente do aplauso alheio. Pouco lhes importa se desafinam. Querem é espantar seus males sob a água alegre, e os outros que tapem os ouvidos.
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Os que transam no banheiro estão mais próximos da animalidade própria do instinto sexual. E são mais objetivos. É lá, afinal de contas, que tudo termina.        
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“Estar no trono” é uma das mais irônicas expressões da nossa língua. Aplicá-la a uma atitude tão prosaica como a de sentar no vaso sanitário é uma forma de escarnecer da nossa pretensa superioridade. É pôr em xeque a suposta realeza de um bicho que se imagina superior, mas come e... descome como os outros.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O complô

    Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que estavam reunidos uns tipos estranhos – umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:
      -- Amigos, eu aqui sou a cabeça – ou o cabeça, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.
     -- As figuras, unidas, jamais seremos vencidas... – entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:
       -- Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.
       -- Mas que arrogância! – objetou Metáfora. -- Até para dizer isso você me usa. Cabeça é metáfora. como sou mesmo importante?
Metonímia não se deu por vencida:
      -- O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.
     -- Sabe por que aconteceu isto com ela? – insistiu Metáfora. – Porque se deixou usar demais. Agora não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra – e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.
      A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de  Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.
        Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era muito honestoopinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “ -- Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também...” – mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.
       Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele.” – e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor ao plenário e pedir-lhe que informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática
         -- Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós – enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia consigo, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho...”.
        Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas – umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de normas, regras, hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.
       -- Seja o que for que vocês queiram, eu cedo – acabou por dizer. – De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte – seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: – De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona – assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.
          Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Do baú (11)

As redes sociais criaram um tipo estranho de relação entre as pessoas: quem delas participa não está só, mas também não está acompanhado.
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O Facebook é um micromundo. Como tal, reflete a realidade do espírito humano, que oscila entre a comiseração e o despeito. Muitos que curtem não leem, e muitos que leem não curtem. Felizmente existem as boas exceções, que fazem as duas coisas.
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Frequentemente sou assediado na internet por dois tipos de pessoa. O que quer me converter e o que quer me perverter. Resisto com igual ênfase aos dois por fidelidade tanto ao livre pensamento (o maior bem do homem) quando à minha identidade sexual (o maior bem da minha mulher).
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A política é a única atividade para a qual a pessoa não precisa se formar. Exerce sem diploma, como outros fazem bicos. Você conhece algum parlamentar formado em ciência política? Quem tem esse título geralmente não participa do jogo partidário e quando o faz se dá mal. É que para esse jogo a habilidade exigida é outra e dispensa a chancela de um diploma. Atenção, isto não tem nada a ver com a possibilidade de um analfabeto chegar à presidência da República. O problema, bem postas as coisas, não está no grau de instrução; está na competência e na seriedade de propósitos, que na maior parte das vezes estão associadas a um saber.
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Segundo o cristianismo, o preço do pecado é a morte. Se não tivesse pecado, por meio de Adão, o homem seria eterno. Como os outros animais também morrem, das duas uma: ou eles também pecaram, ou são vítimas de uma tremenda injustiça divina.
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Por meio do casamento, escolhemos não apenas quem será a mãe dos nossos filhos ou com quem vamos dividir as dificuldades do dia a dia. Escolhemos também com quem vamos envelhecer. E se o destino do envelhecimento é a morte, pelo casamento decidimos com quem vamos morrer. Esse é o grande teste para o amor. Amar quem nos gratifica é fácil, pois atende à cota de egoísmo presente em cada ser humano. Difícil é amar quem dá trabalho e tem pouca, ou nenhuma, capacidade de retribuição.
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Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele. 

De convicções e provas

Os versos abaixo não representam propriamente minhas... convicções, mas não deu para resistir ao mote:

Jesus Cristo era um romano
infiltrado no povão.
Hiroshima foi desfeita
com uma bomba de São-João.
Hitler era um cruzamento
de judeu e alemão.
NÃO TENHO COMO PROVAR,
MAS TENHO CONVICÇÃO.

Bin Laden vai virar santo
por seu grande coração.
Eva, em vez de maçã,  
deu uma pera a Adão.
O que não há no Brasil
é político ladrão.  
NÃO TENHO COMO PROVAR,
MAS TENHO CONVICÇÃO.

Dei uma finta em Zico  
e dois “lençóis” em Pelé.
Aqui em casa mando eu –
sabe bem disso a mulher.
Fiz ópera com Pavarotti
e alisei o cangote  
da Piovani e da Brunet.
Quem duvida do que eu digo
atente bem no refrão:
NÃO TENHO COMO PROVAR,
MAS TENHO CONVICÇÃO.