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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Quadrinhas de aniversário

                  1

Neste dia (com a idade)  
o que mais alegra a gente
é na chamada do Tempo
poder responder: “Presente!”.

                  2

Se não digo a minha idade,
a minha idade me diz.
E sempre fala a verdade
(como toda cicatriz!).

                     3
Há quem prefira viagens,
festas ou muitas curtidas.      
Prefiro saudar com quadras
mais uma quadra da vida.

Humilhado (41) (42) (43) (44)

HUMILHADO (41)
A imagem do anacoluto  
figura o meu abandono:
a moça, não se lhe dá 
se me faz perder o sono...

HUMILHADO (42)
Se quer dar ao seu leitor
uma escrita clara e reta,
do hipérbato não abuse;   
prefira a ordem direta.

HUMILHADO (43)
Só a palavra-centauro
traduz bem a alternância
entre ansiedade e espera
em que vivo: esperânsia.

HUMILHADO (44)
Seu desprezo é um pleonasmo
que a mim irrita e maltrata,
pois ela fica em silêncio
e não diz uma palavra!

sábado, 22 de abril de 2017

Moto contínuo

          Enfronha-se para dormir,
          mas é duro o travesseiro.
          O corpo nega-lhe o sono 
          e o repouso do guerreiro.
          
         Entre a cama e o descanso,  
         lembranças, sustos e medos!
         Nem precisa adormecer 
        -- vive em claro os pesadelos.
 
         E quando surge a manhã,
         leva o corpo revolvido
         à sanha de mais um dia  
         (só para se manter vivo).

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sigam a vocação

     Por dever de ofício, convivo com jovens que devem fazer a delicada escolha da profissão. Eles estão no limiar do curso superior, têm entre dezesseis e dezoito anos e alimentam muitas dúvidas sobre a carreira que pretendem seguir. É fácil ler-lhes no semblante a ansiosa expectativa quanto ao futuro. Lidar com esse pessoal me comove e estimula, por isso de vez em quando eu lhes conto a minha história.
         A história nada tem de extraordinário mas, num contexto marcado pela absoluta primazia do financeiro como este em que vivemos, adquiriu uma dimensão desproporcional ao seu valor.  Muitos já conhecem o fato e me perguntam sobre ele antes de eu me manifestar: como é que, num mundo como o de hoje, você teve coragem de trocar o curso de Medicina pelo de Letras? Já estava no quarto ano, faltava pouco para se formar...
         Se eu tivesse feito o percurso inverso, ninguém se espantaria. Teria trocado um curso menos rentável por outro de melhor remuneração. Ainda que me revelasse, com o tempo, um médico chinfrim, todos aplaudiriam o gesto. Eu teria agido com “sensatez”, perseguindo mesmo ilusoriamente o conforto e o sucesso. Mas que se pode esperar, em termos de ascensão econômica e social, de um curso como Letras? Alguém me disse na época que era um curso para moças; ainda bem que tive suficiente confiança em minha masculinidade para não me assustar!
      Quando falo sobre este assunto com a garotada, limito-me a dizer-lhe que siga a vocação. Em meio às dificuldades e aos desencantos da vida, ela ainda é o referencial mais seguro. Se era difícil no meu tempo conseguir emprego, imaginem agora, que um mercado extremamente concorrido exige que cada um dê o máximo de si. Fica mais fácil atender a suas tirânicas exigências quando a escolha profissional não contraria a propensão inscrita em nossos gens.
Mudei de curso na década de 1970, quando o mundo era outro. Reconheço que isso pode ter tornado a minha escolha mais fácil. Ainda não se falava em globalização, e cada um podia curtir com espontaneidade a sua aldeia.
Hoje o futuro nos convoca com impaciência, como se o maior pecado fosse perder tempo. É preciso acordar cedo para os desafios de uma época de poucos empregos e que mede a realização de cada um pelo número de bens móveis e imóveis que conseguiu juntar. Desconfia-se de quem se diz contente com a profissão e não ostenta um grande patrimônio. Ninguém aceita o indivíduo “apenas” satisfeito.
Não me arrependo da escolha que fiz. Também não quero ser exemplo, pois teria me custado mais exercer uma profissão para a qual não era dotado. Só lamento que não ocorra a ninguém que um simples professor, dizendo a seus alunos estas e tantas outras coisas em sala de aula, pode estar contente com a vida. 

domingo, 2 de abril de 2017

Cinco verdades sobre a mentira

A verdade incomoda. A mentira acomoda. Como preferimos acomodar as coisas a resolvê-las, optamos pela mentira na maior parte do tempo. No restante, cultivamos algumas ilusões.   
                                                 ****
         -- Querida, ontem eu menti para você.
         -- Não se preocupe. Eu faço isso com você há 25 anos...
                                                 ****
         Quem mente mais? O homem ou a mulher? O homem, claro! (Longe de mim despertar nas leitoras uma daquelas chatas discussões sobre gênero...). Brincadeiras à parte, a verdade é que os homens mentem mais. Eles erram mais, por isso têm muito o que esconder – ou disfarçar.
                                                 ****
     Machado fala das “mentiras pias”, que existem para tornar mais branda a convivência. São mentiras bem-intencionadas, que seria pecado trocar por uma verdade contundente embora justa.
         Enfim, tudo depende do contexto e sobretudo da intenção.
                                                 ****
         As pessoas preferem uma mentira verossímil a uma verdade inverossímil. É mais confortável crer do que desconfiar.  

sábado, 1 de abril de 2017

Mentira e linguagem

Sempre achei que o homem é sincero quando mente. Mentir faz parte da nossa natureza. Sem a mentira não poderíamos poderia viver com os outros, e muito menos com nós mesmos.   
Há pelo menos um livro que dá razão, ou pelo menos prestígio filosófico, às minhas suspeitas. Trata-se de “Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira”, escrito pelo professor de Filosofia David Livingstone Smith. Segundo o autor, “mentir é tão natural quanto respirar”. Precisamos ser mentirosos até mesmo para assegurar nossa saúde psíquica, poisquem fala a verdade corre o risco de ser doente mental”.
Não se pretende aqui fazer uma defesa da falsidade e da hipocrisia. Não temos o direito de trair ou enganar os outros. A mentira a que me refiro é algo constitutivo do ser humano. Decorre de ele viver entre ritos, convenções, e ter a percepção de si e do mundo intermediada pela linguagem.
Como a linguagem nos afasta da essência das coisas, pois se engendra a partir de uma relação arbitrária entre significado e significante, ela nos lança numa teia de sentidos na qual é impossível discernir o ilusório do real. Por meio da linguagem, o homem inventa a si mesmo.
A partir do momento em que nasce a consciência linguística, nasce a mentira. Ela é, por assim, a grande criação do discurso. Os sofistas foram os primeiros a descobrir isso. Eles viram que por meio da retórica podiam influir na visão dos fatos, modificar a seu bel-prazer o valor das coisas.
Isso não significa que não existam verdades essenciais. O amor, por exemplo, é uma delas. Não vivemos sem amor, mas não conseguimos preservar esse belo sentimento dos artifícios da retórica (ou seja, da mentira).
A retórica se infiltrou em tudo que em sentido amplo, graças à energia criadora do amor, tende a promover a aproximação do homem com os seus semelhantes – de um bilhete de namorados ao discurso dos políticos, passando pelos manuais de autoajuda.
O que há nesses textos, senão promessas que jamais se cumprem?

Humilhado (37) (38) (39) (40)

HUMILHADO (37)
Explicando o arcaísmo,
disse-nos o lente, à sorrelfa: 
“Português bom e castiço    
é o que de antanhos se mescla...”.

HUMILHADO (38)
Reflexão crucial     
que a paronomásia inspira:    
há momentos nesta vida   
em que a gente ou para, ou pira!

HUMILHADO (39)
A catacrese é metáfora
desgastada e já sem cor.
Evite dizer que a moça
de quem gosta é “uma flor”!

HUMILHADO (40)
A prática do intertexto    
não vai alterar o jogo.  
“Minha terra tem palmeiras”,
          mas meu time é o Botafogo.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Zanzoando (6)

    Há três tipos de posicionamento diante dos atuais escândalos de corrupção: o dos que querem a punição para todos os envolvidos, sejam eles de direita ou de esquerda; o dos que só admitem punição para os opositores; e o dos que não desejam punição alguma. Para esses deve-se passar uma borracha nos delitos e recomeçar do zero, pois crimes como o Caixa Dois faziam parte do sistema. Se todos pecaram, ninguém pecou (não é essa a perspectiva do pecado original...).
      Essa divisão do Brasil é antiga e me faz lembrar os meus tempos de Liceu paraibano. Deles ficaram lições.  Uma delas é que a lei da História é o ressentimento (ligado ao nietzschiano desejo de poder). A esquerda, tanto quanto a direita, quer o poder. O que a move não é propriamente a solidariedade com os que não têm, e sim o ódio aos que têm.
         Agir por ódio ou ressentimento turva o senso de justiça e abre espaço à vingança. Quem cultiva o senso de justiça quer que a punição se estenda a todos; os que agem por vingança desejam que se fechem os olhos aos erros dos pensam como eles. É como se a coloração ideológica fosse um álibi perene, que imuniza o indivíduo de todas as falhas morais (passadas e futuras). 
                                                  ****
O importante não é a sua opinião ser verdade, mas existir verdade na sua opinião.

                                        ****
Nada como invocar Machado (sempre ele!) para explicar o Brasil. O país está me lembrando a Itaguaí do conto “O alienista”. Com adaptações, claro (e para pior). Onde na novela se lê doudo (grafia machadiana), leia-se corrupto.
Janot seria Simão Bacamarte, que pretende colocar os doudos da cidade na Casa Verde (um hospício, por sinal, bem mais salubre do que os atuais). Mas eram tantos os doudos que, com o tempo, havia mais deles dentro do que fora do hospício.
A solução? Mudar os critérios, claro, pois a maioria é que firma o consenso. Elaborou-se então um equivalente à lei do “abuso de autoridade” para enquadrar o Dr. Aristarco e os que ele considerava sãos (honestos). Funcionou. Os doudos deixaram a Casa Verde, e os que estavam fora acabaram trancafiados nela. 
Itaguaí é uma espécie de microcosmo, e nada impede que o que houve lá ocorra por aqui. Janot que se cuide!
                                       ****
      O exame mais difícil é o de consciência. Devemos fazê-lo todo dia, mesmo sabendo que nunca seremos aprovados. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Humilhado (33) (34) (35) 36)

HUMILHADO (33)
Muitos usam da hipérbole
sem temor ao destempero.    
Eu sou o único no mundo
que rejeita esse exagero.  

HUMILHADO (34)
Imitar o som do grilo
é só onomatopeia.
Já ouvir alguém cricri
é de torrar a ideia!

HUMILHADO (35)
Na língua se acha o tal  
porém não passa de um tonto, 
pois decora os coletivos
mas não sabe usar o ponto.

HUMILHADO (36)
Quando o mestre disse “zeugma”,
quase nos deixou sem voz.  
Não entendemos a ele;
muito menos ele, a nós.